Elifaz

Então respondeu Elifaz, o temanita:

Pode o homem ser de algum proveito a Deus? Antes a si mesmo é que o prudenté será proveitoso.

Tem o Todo-Poderoso prazer em que tu sejas justo, ou lucro em que tu faças perfeitos os teus caminhos?

É por causa da tua reverência que te repreende, ou que entra contigo em juízo?

Não é grande a tua malícia, e sem termo as tuas iniqüidades?

Pois sem causa tomaste penhôres a teus irmaos e aos nus despojaste dos vestidos.

Não deste ao cansado água a beber, e ao faminto retiveste o pão.

Mas ao poderoso pertencia a terra, e o homem acatado habitava nela.

Despediste vazias as viúvas, e os braços dos órfãos foram quebrados.

Por isso é que estás cercado de laços, e te perturba um pavor repentino,

ou trevas de modo que nada podes ver, e a inundação de águas te cobre.

Não está Deus na altura do céu? Olha para as mais altas estrelas, quão elevadas estão!

E dizes: Que sabe Deus? Pode ele julgar através da escuridão?

Grossas nuvens o encobrem, de modo que não pode ver; e ele passeia em volta da abóbada do céu.

Queres seguir a vereda antiga, que pisaram os homens iníquos?

Os quais foram arrebatados antes do seu tempo; e o seu fundamento se derramou qual um rio.

Diziam a Deus: retira-te de nós; e ainda: Que é que o Todo-Poderoso nos pode fazer?

Contudo ele encheu de bens as suas casas. Mas longe de mim estejam os conselhos dos ímpios!

Os justos o vêem, e se alegram: e os inocentes escarnecem deles,

dizendo: Na verdade são exterminados os nossos adversários, e o fogo consumiu o que deixaram.

Apega-te, pois, a Deus, e tem paz, e assim te sobrevirá o bem.

Aceita, peço-te, a lei da sua boca, e põe as suas palavras no teu coração.

Se te voltares para o Todo-Poderoso, serás edificado; se lançares a iniqüidade longe da tua tenda,

e deitares o teu tesouro no pó, e o ouro de Ofir entre as pedras dos ribeiros,

então o Todo-Poderoso será o teu tesouro, e a tua prata preciosa.

Pois então te deleitarás no Todo-Poderoso, e levantarás o teu rosto para Deus.

Tu orarás a ele, e ele te ouvirá; e pagarás os teus votos.

Também determinarás algum negócio, e ser-te-á firme, e a luz brilhará em teus caminhos.

Quando te abaterem, dirás: haja exaltação! E Deus salvará ao humilde.

E livrará até o que não é inocente, que será libertado pela pureza de tuas mãos.

Job – Jó 23-1

A Bíblia Online > Antigo Testamento > Livros Poéticos e Sapienciais > > Job – Jó 23-1 [Jó 23:1 - Jó 24:25]

Então respondeu:

Ainda hoje a minha queixa está em amargura; o peso da mão dele é maior do que o meu gemido.

Ah, se eu soubesse onde encontrá-lo, e pudesse chegar ao seu tribunal!

Exporia ante ele a minha causa, e encheria a minha boca de argumentos.

Saberia as palavras com que ele me respondesse, e entenderia o que me dissesse.

Acaso contenderia ele comigo segundo a grandeza do seu poder? Não; antes ele me daria ouvidos.

Ali o reto pleitearia com ele, e eu seria absolvido para sempre por meu Juiz.

Eis que vou adiante, mas não está ali; volto para trás, e não o percebo;

procuro-o ã esquerda, onde ele opera, mas não o vejo; viro-me para a direita, e não o diviso.

Mas ele sabe o caminho por que eu ando; provando-me ele, sairei como o ouro.

Os meus pés se mantiveram nas suas pisadas; guardei o seu caminho, e não me desviei dele.

Nunca me apartei do preceito dos seus lábios, e escondi no meu peito as palavras da sua boca.

Mas ele está resolvido; quem então pode desviá-lo? E o que ele quiser, isso fará.

Pois cumprirá o que está ordenado a meu respeito, e muitas coisas como estas ainda tem consigo.

Por isso me perturbo diante dele; e quando considero, tenho medo dele.

Deus macerou o meu coração; o Todo-Poderoso me perturbou.

Pois não estou desfalecido por causa das trevas, nem porque a escuridão cobre o meu rosto.

Por que o Todo-Poderoso não designa tempos? e por que os que o conhecem não vêem os seus dias?

Há os que removem os limites; roubam os rebanhos, e os apascentam.

Levam o jumento do órfão, tomam em penhor o boi da viúva.

Desviam do caminho os necessitados; e os oprimidos da terra juntos se escondem.

Eis que, como jumentos monteses no deserto, saem eles ao seu trabalho, procurando no ermo a presa que lhes sirva de sustento para seus filhos.

No campo segam o seu pasto, e vindimam a vinha do ímpio.

Passam a noite nus, sem roupa, não tendo coberta contra o frio.

Pelas chuvas das montanhas são molhados e, por falta de abrigo, abraçam-se com as rochas.

Há os que arrancam do peito o órfão, e tomam o penhor do pobre;

fazem que estes andem nus, sem roupa, e, embora famintos, carreguem os molhos.

Espremem o azeite dentro dos muros daqueles homens; pisam os seus lagares, e ainda têm sede.

Dentro das cidades gemem os moribundos, e a alma dos feridos clama; e contudo Deus não considera o seu clamor.

Há os que se revoltam contra a luz; não conhecem os caminhos dela, e não permanecem nas suas veredas.

O homicida se levanta de madrugada, mata o pobre e o necessitado, e de noite torna-se ladrão.

Também os olhos do adúltero aguardam o crepúsculo, dizendo: Ninguém me verá; e disfarça o rosto.

Nas trevas minam as casas; de dia se conservam encerrados; não conhecem a luz.

Pois para eles a profunda escuridão é a sua manhã; porque são amigos das trevas espessas.

São levados ligeiramente sobre a face das águas; maldita é a sua porção sobre a terra; não tornam pelo caminho das vinhas.

A sequidão e o calor desfazem as, águas da neve; assim faz o Seol aos que pecaram.

A madre se esquecerá dele; os vermes o comerão gostosamente; não será mais lembrado; e a iniqüidade se quebrará como árvore.

Ele despoja a estéril que não dá ã luz, e não faz bem ã viúva.

Todavia Deus prolonga a vida dos valentes com a sua força; levantam-se quando haviam desesperado da vida.

Se ele lhes dá descanso, estribam-se, nisso; e os seus olhos estão sobre os caminhos deles.

Eles se exaltam, mas logo desaparecem; são abatidos, colhidos como os demais, e cortados como as espigas do trigo.

Se não é assim, quem me desmentirá e desfará as minhas palavras?

Bildade

Então respondeu Bildade, o suíta:

Com Deus estão domínio e temor; ele faz reinar a paz nas suas alturas.

Acaso têm número os seus exércitos? E sobre quem não se levanta a sua luz?

Como, pois, pode o homem ser justo diante de Deus, e como pode ser puro aquele que nasce da mulher?

Eis que até a lua não tem brilho, e as estrelas não são puras aos olhos dele;

quanto menos o homem, que é um verme, e o filho do homem, que é um vermezinho!

Job – Jó 26-1

A Bíblia Online > Antigo Testamento > Livros Poéticos e Sapienciais > > Job – Jó 26-1 [Jó 26:1 - Jó 31:40]

Então respondeu:

Como tens ajudado ao que não tem força e sustentado o braço que não tem vigor!

como tens aconselhado ao que não tem sabedoria, e plenamente tens revelado o verdadeiro conhecimento!

Para quem proferiste palavras? E de quem é o espírito que saiu de ti?

Os mortos tremem debaixo das águas, com os que ali habitam.

O Seol está nu perante Deus, e não há coberta para o Abadom.

Ele estende o norte sobre o vazio; suspende a terra sobre o nada.

Prende as águas em suas densas nuvens, e a nuvem não se rasga debaixo delas.

Encobre a face do seu trono, e sobre ele estende a sua nuvem.

Marcou um limite circular sobre a superfície das águas, onde a luz e as trevas se confinam.

As colunas do céu tremem, e se espantam da sua ameaça.

Com o seu poder fez sossegar o mar, e com o seu entendimento abateu a Raabe.

Pelo seu sopro ornou o céu; a sua mão traspassou a serpente veloz.

Eis que essas coisas são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pequeno é o sussurro que dele, ouvimos! Mas o trovão do seu poder, quem o poderá entender?

E prosseguindo Jó em seu discurso, disse:

Vive Deus, que me tirou o direito, e o Todo-Poderoso, que me amargurou a alma;

enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus no meu nariz,

não falarão os meus lábios iniqüidade, nem a minha língua pronunciará engano.

Longe de mim que eu vos dê razão; até que eu morra, nunca apartarei de mim a minha integridade.

ë minha justiça me apegarei e não a largarei; o meu coração não reprova dia algum da minha vida.

Seja como o ímpio o meu inimigo, e como o perverso aquele que se levantar contra mim.

Pois qual é a esperança do ímpio, quando Deus o cortar, quando Deus lhe arrebatar a alma?

Acaso Deus lhe ouvirá o clamor, sobrevindo-lhe a tribulação?

Deleitar-se-á no Todo-Poderoso, ou invocará a Deus em todo o tempo?

Ensinar-vos-ei acerca do poder de Deus, e não vos encobrirei o que está com o Todo-Poderoso.

Eis que todos vós já vistes isso; por que, pois, vos entregais completamente ã vaidade?

Esta é da parte de Deus a porção do ímpio, e a herança que os opressores recebem do Todo-Poderoso:

Se os seus filhos se multiplicarem, será para a espada; e a sua prole não se fartará de pão.

Os que ficarem dele, pela peste serão sepultados, e as suas viúvas não chorarão.

Embora amontoe prata como pó, e acumule vestes como barro,

ele as pode acumular, mas o justo as vestirá, e o inocente repartirá a prata.

A casa que ele edifica é como a teia da aranha, e como a cabana que o guarda faz.

Rico se deita, mas não o fará mais; abre os seus olhos, e já se foi a sua riqueza.

Pavores o alcançam como um dilúvio; de noite o arrebata a tempestade.

O vento oriental leva-o, e ele se vai; sim, varre-o com ímpeto do seu lugar:

Pois atira contra ele, e não o poupa, e ele foge precipitadamente do seu poder.

Bate palmas contra ele, e assobia contra ele do seu lugar.

Na verdade, há minas donde se extrai a prata, e também lugar onde se refina o ouro:

O ferro tira-se da terra, e da pedra se funde o cobre.

Os homens põem termo Abrem um poço de mina longe do lugar onde habitam; são esquecidos pelos viajantes, ficando pendentes longe dos homens, e oscilam de um lado para o outro.

Quanto ã terra, dela procede o pão, mas por baixo é revolvida como por fogo.

As suas pedras são o lugar de safiras, e têm pó de ouro.

A ave de rapina não conhece essa vereda, e não a viram os olhos do falcão.

Nunca a pisaram feras altivas, nem o feroz leão passou por ela.

O homem estende a mão contra a pederneira, e revolve os montes desde as suas raízes.

Corta canais nas pedras, e os seus olhos descobrem todas as coisas preciosas.

Ele tapa os veios d’água para que não gotejem; e tira para a luz o que estava escondido.

Mas onde se achará a sabedoria? E onde está o lugar do entendimento?

O homem não lhe conhece o caminho; nem se acha ela na terra dos viventes.

O abismo diz: Não está em mim; e o mar diz: Ela não está comigo.

Não pode ser comprada com ouro fino, nem a peso de prata se trocará.

Nem se pode avaliar em ouro fino de Ofir, nem em pedras preciosas de berilo, ou safira.

Com ela não se pode comparar o ouro ou o vidro; nem se trocara por jóias de ouro fino.

Não se fará menção de coral nem de cristal; porque a aquisição da sabedoria é melhor que a das pérolas.

Não se lhe igualará o topázio da Etiópia, nem se pode comprar por ouro puro.

Donde, pois, vem a sabedoria? Onde está o lugar do entendimento?

Está encoberta aos olhos de todo vivente, e oculta O Abadom e a morte dizem: Ouvimos com os nossos ouvidos um rumor dela.

Deus entende o seu caminho, e ele sabe o seu lugar.

Porque ele perscruta até as extremidades da terra, sim, ele vê tudo o que há debaixo do céu.

Quando regulou o peso do vento, e fixou a medida das águas;

quando prescreveu leis para a chuva e caminho para o relâmpago dos trovões;

então viu a sabedoria e a manifestou; estabeleceu-a, e também a esquadrinhou.

E disse ao homem: Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e o apartar-se do mal é o entendimento.

E prosseguindo Jó no seu discurso, disse:

Ah! quem me dera ser como eu fui nos meses do passado, como nos dias em que Deus me guardava;

quando a sua lâmpada luzia sobre o minha cabeça, e eu com a sua luz caminhava através das trevas;

como era nos dias do meu vigor, quando o íntimo favor de Deus estava sobre a minha tenda;

quando o Todo-Poderoso ainda estava comigo, e os meus filhos em redor de mim;

quando os meus passos eram banhados em leite, e a rocha me deitava ribeiros de azeite!

Quando eu saía para a porta da cidade, e na praça preparava a minha cadeira,

os moços me viam e se escondiam, e os idosos se levantavam e se punham em pé;

os príncipes continham as suas palavras, e punham a mão sobre a sua boca;

a voz dos nobres emudecia, e a língua se lhes pegava ao paladar.

Pois, ouvindo-me algum ouvido, me tinha por bem-aventurado; e vendo-me algum olho, dava testemunho de mim;

porque eu livrava o miserável que clamava, e o órfão que não tinha quem o socorresse.

A bênção do que estava a perecer vinha sobre mim, e eu fazia rejubilar-se o coração da viúva.

vestia-me da retidão, e ela se vestia de mim; como manto e diadema era a minha justiça.

Fazia-me olhos para o cego, e pés para o coxo;

dos necessitados era pai, e a causa do que me era desconhecido examinava com diligência.

E quebrava os caninos do perverso, e arrancava-lhe a presa dentre os dentes.

Então dizia eu: No meu ninho expirarei, e multiplicarei os meus dias como a areia;

as minhas raízes se estendem até as águas, e o orvalho fica a noite toda sobre os meus ramos;

a minha honra se renova em mim, e o meu arco se revigora na minhã mão.

A mim me ouviam e esperavam, e em silêncio atendiam ao meu conselho.

Depois de eu falar, nada replicavam, e minha palavra destilava sobre eles;

esperavam-me como ã chuva; e abriam a sua boca como ã chuva tardia.

Eu lhes sorria quando não tinham confiança; e não desprezavam a luz do meu rosto;

eu lhes escolhia o caminho, assentava-me como chefe, e habitava como rei entre as suas tropas, como aquele que consola os aflitos.

Mas agora zombam de mim os de menos idade do que eu, cujos pais teria eu desdenhado de pôr com os cães do meu rebanho.

Pois de que me serviria a força das suas mãos, homens nos quais já pereceu o vigor?

De míngua e fome emagrecem; andam roendo pelo deserto, lugar de ruínas e desolação.

Apanham malvas junto aos arbustos, e o seu mantimento são as raízes dos zimbros.

São expulsos do meio dos homens, que gritam atrás deles, como atrás de um ladrão.

Têm que habitar nos desfiladeiros sombrios, nas cavernas da terra e dos penhascos.

Bramam entre os arbustos, ajuntam-se debaixo das urtigas.

São filhos de insensatos, filhos de gente sem nome; da terra foram enxotados.

Mas agora vim a ser a sua canção, e lhes sirvo de provérbio.

Eles me abominam, afastam-se de mim, e no meu rosto não se privam de cuspir.

Porquanto Deus desatou a minha corda e me humilhou, eles sacudiram de si o freio perante o meu rosto.

ë direita levanta-se gente vil; empurram os meus pés, e contra mim erigem os seus caminhos de destruição.

Estragam a minha vereda, promovem a minha calamidade; não há quem os detenha.

Vêm como por uma grande brecha, por entre as ruínas se precipitam.

Sobrevieram-me pavores; é perseguida a minha honra como pelo vento; e como nuvem passou a minha felicidade.

E agora dentro de mim se derrama a minha alma; os dias da aflição se apoderaram de mim.

De noite me são traspassados os ossos, e o mal que me corrói não descansa.

Pela violência do mal está desfigurada a minha veste; como a gola da minha túnica, me aperta.

Ele me lançou na lama, e fiquei semelhante ao pó e ã cinza.

Clamo a ti, e não me respondes; ponho-me em pé, e não atentas para mim.

Tornas-te cruel para comigo; com a força da tua mão me persegues.

Levantas-me sobre o vento, fazes-me cavalgar sobre ele, e dissolves-me na tempestade.

Pois eu sei que me levarás ã morte, e ã casa do ajuntamento destinada a todos os viventes.

Contudo não estende a mão quem está a cair? ou não clama por socorro na sua calamidade?

Não chorava eu sobre aquele que estava aflito? ou não se angustiava a minha alma pelo necessitado?

Todavia aguardando eu o bem, eis que me veio o mal, e esperando eu a luz, veio a escuridão.

As minhas entranhas fervem e não descansam; os dias da aflição me surpreenderam.

Denegrido ando, mas não do sol; levanto-me na congregação, e clamo por socorro.

Tornei-me irmão dos chacais, e companheiro dos avestruzes.

A minha pele enegrece e se me cai, e os meus ossos estão queimados do calor.

Pelo que se tornou em pranto a minha harpa, e a minha flauta em voz dos que choram.

Fiz pacto com os meus olhos; como, pois, os fixaria numa virgem?

Pois que porção teria eu de Deus lá de cima, e que herança do Todo-Poderoso lá do alto?

Não é a destruição para o perverso, e o desastre para os obradores da iniqüidade?

Não vê ele os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?

Se eu tenho andado com falsidade, e se o meu pé se tem apressado após o engano

(pese-me Deus em balanças fiéis, e conheça a minha integridade);

se os meus passos se têm desviado do caminho, e se o meu coraçao tem seguido os meus olhos, e se qualquer mancha se tem pegado então semeie eu e outro coma, e seja arrancado o produto do meu campo.

Se o meu coração se deixou seduzir por causa duma mulher, ou se eu tenho armado traição ã porta do meu próximo,

então moa minha mulher para outro, e outros se encurvem sobre ela.

Pois isso seria um crime infame; sim, isso seria uma iniqüidade para ser punida pelos juízes;

porque seria fogo que consome até Abadom, e desarraigaria toda a minha renda.

Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando eles pleitearam comigo,

então que faria eu quando Deus se levantasse? E quando ele me viesse inquirir, que lhe responderia?

Aquele que me formou no ventre não o fez também a meu servo? E não foi um que nos plasmou na madre?

Se tenho negado aos pobres o que desejavam, ou feito desfalecer os olhos da viúva,

ou se tenho comido sozinho o meu bocado, e não tem comido dele o órfão também

(pois desde a minha mocidade o órfão cresceu comigo como com seu pai, e a viúva, tenho-a guiado desde o ventre de minha mãe);

se tenho visto alguém perecer por falta de roupa, ou o necessitado não ter com que se cobrir;

se os seus lombos não me abençoaram, se ele não se aquentava com os velos dos meus cordeiros;

se levantei a minha mão contra o órfao, porque na porta via a minha ajuda;

então caia do ombro a minha espádua, e separe-se o meu braço da sua juntura.

Pois a calamidade vinda de Deus seria para mim um horror, e eu não poderia suportar a sua majestade.

Se do ouro fiz a minha esperança, ou disse ao ouro fino: Tu és a minha confiança;

se me regozijei por ser grande a minha riqueza, e por ter a minha mão alcança o muito;

se olhei para o sol, quando resplandecia, ou para a lua, quando ela caminhava em esplendor,

e o meu coração se deixou enganar em oculto, e a minha boca beijou a minha mão;

isso também seria uma iniqüidade para ser punida pelos juízes; pois assim teria negado a Deus que está lá em cima.

Se me regozijei com a ruína do que me tem ódio, e se exultei quando o mal lhe sobreveio

(mas eu não deixei pecar a minha boca, pedindo com imprecação a sua morte);

se as pessoas da minha tenda não disseram: Quem há que não se tenha saciado com carne provida por ele?

O estrangeiro não passava a noite na rua; mas eu abria as minhas portas ao viandante;

se, como Adão, encobri as minhas transgressões, ocultando a minha iniqüidade no meu seio,

porque tinha medo da grande multidão, e o desprezo das famílias me aterrorizava, de modo que me calei, e não saí da porta…

Ah! quem me dera um que me ouvisse! Eis a minha defesa, que me responda o Todo-Poderoso! Oxalá tivesse eu a acusação escrita pelo meu adversário!

Por certo eu a levaria sobre o ombro, sobre mim a ataria como coroa.

Eu lhe daria conta dos meus passos; como príncipe me chegaria a ele

Se a minha terra clamar contra mim, e se os seus sulcos juntamente chorarem;

se comi os seus frutos sem dinheiro, ou se fiz que morressem os seus donos;

por trigo me produza cardos, e por cevada joio. Acabaram-se as palavras de Jó.

Eliú

E aqueles três homens cessaram de responder a ; porque era justo aos seus próprios olhos.

Então se acendeu a ira de Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão; acendeu-se a sua ira contra Jó, porque este se justificava a si mesmo, e não a Deus.

Também contra os seus três amigos se acendeu a sua ira, porque não tinham achado o que responder, e contudo tinham condenado a Jó.

Ora, Eliú havia esperado para falar a Jó, porque eles eram mais idosos do que ele.

Quando, pois, Eliú viu que não havia resposta na boca daqueles três homens, acendeu-se-lhe a ira.

Então respondeu Eliú, filho de Baraquel, o buzita, dizendo: Eu sou de pouca idade, e vós sois, idosos; arreceei-me e temi de vos declarar a minha opinião.

Dizia eu: Falem os dias, e a multidão dos anos ensine a sabedoria.

Há, porém, um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz entendido.

Não são os velhos que são os sábios, nem os anciãos que entendem o que é reto.

Pelo que digo: Ouvi-me, e também eu declararei a minha opinião.

Eis que aguardei as vossas palavras, escutei as vossas considerações, enquanto buscáveis o que dizer.

Eu, pois, vos prestava toda a minha atenção, e eis que não houve entre vós quem convencesse a Jó, nem quem respondesse pelo que não digais: Achamos a sabedoria; Deus é que pode derrubá-lo, e não o homem.

Ora ele não dirigiu contra mim palavra alguma, nem lhe responderei com as vossas palavras.

Estão pasmados, não respondem mais; faltam-lhes as palavras.

Hei de eu esperar, porque eles não falam, porque já pararam, e não respondem mais?

Eu também darei a minha resposta; eu também declararei a minha opinião.

Pois estou cheio de palavras; o espírito dentro de mim me constrange.

Eis que o meu peito é como o mosto, sem respiradouro, como odres novos que estão para arrebentar.

Falarei, para que ache alívio; abrirei os meus lábios e responderei:

Que não faça eu acepção de pessoas, nem use de lisonjas para com o homem.

Porque não sei usar de lisonjas; do contrário, em breve me levaria o meu Criador.

Ouve, pois, as minhas palavras, ó Jó, e dá ouvidos a todas as minhas declaraçoes.

Eis que já abri a minha boca; já falou a minha língua debaixo do meu paladar.

As minhas palavras declaram a integridade do meu coração, e os meus lábios falam com sinceridade o que sabem.

O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida.

Se podes, responde-me; põe as tuas palavras em ordem diante de mim; apresenta-te.

Eis que diante de Deus sou o que tu és; eu também fui formado do barro.

Eis que não te perturbará nenhum medo de mim, nem será pesada sobre ti a minha mão.

Na verdade tu falaste aos meus ouvidos, e eu ouvi a voz das tuas palavras. Dizias:

Limpo estou, sem transgressão; puro sou, e não há em mim iniqüidade.

Eis que Deus procura motivos de inimizade contra mim, e me considera como o seu inimigo.

Põe no tronco os meus pés, e observa todas as minhas veredas.

Eis que nisso não tens razão; eu te responderei; porque Deus e maior do que o homem.

Por que razão contendes com ele por não dar conta dos seus atos?

Pois Deus fala de um modo, e ainda de outro se o homem não lhe atende.

Em sonho ou em visão de noite, quando cai sono profundo sobre os homens, quando adormecem na cama;

então abre os ouvidos dos homens, e os atemoriza com avisos,

para apartar o homem do seu desígnio, e esconder do homem a soberba;

para reter a sua alma da cova, e a sua vida de passar pela espada.

Também é castigado na sua cama com dores, e com incessante contenda nos seus ossos;

de modo que a sua vida abomina o pão, e a sua alma a comida apetecível.

Consome-se a sua carne, de maneira que desaparece, e os seus ossos, que não se viam, agora aparecem.

A sua alma se vai chegando ã cova, e a sua vida aos que trazem a morte.

Se com ele, pois, houver um anjo, um intérprete, um entre mil, para declarar ao homem o que lhe é justo,

então terá compaixão dele, e lhe dirá: Livra-o, para que não desça ã cova; já achei resgate.

Sua carne se reverdecerá mais do que na sua infância; e ele tornará aos dias da sua juventude.

Deveras orará a Deus, que lhe será propício, e o fará ver a sua face com júbilo, e restituirá ao homem a sua justiça.

Cantará diante dos homens, e dirá: Pequei, e perverti o direito, o que de nada me aproveitou.

Mas Deus livrou a minha alma de ir para a cova, e a minha vida verá a luz.

Eis que tudo isto Deus faz duas e três vezes para com o homem,

para reconduzir a sua alma da cova, a fim de que seja iluminado com a luz dos viventes.

Escuta, pois, ó Jó, ouve-me; cala-te, e eu falarei.

Se tens alguma coisa que dizer, responde-me; fala, porque desejo justificar-te.

Se não, escuta-me tu; cala-te, e ensinar-te-ei a sabedoria.

Prosseguiu Eliú, dizendo:

Ouvi, vós, sábios, as minhas palavras; e vós, entendidos, inclinai os ouvidos para mim.

Pois o ouvido prova as palavras, como o paladar experimenta a comida.

O que é direito escolhamos para nós; e conheçamos entre nós o que é bom.

Pois Jó disse: Sou justo, e Deus tirou-me o direito.

Apesar do meu direito, sou considerado mentiroso; a minha ferida é incurável, embora eu esteja sem transgressão.

Que homem há como Jó, que bebe o escárnio como água,

que anda na companhia dos malfeitores, e caminha com homens ímpios?

Porque disse: De nada aproveita ao homem o comprazer-se em Deus.

Pelo que ouvi-me, vós homens de entendimento: longe de Deus o praticar a maldade, e do Todo-Poderoso o cometer a iniqüidade!

Pois, segundo a obra do homem, ele lhe retribui, e faz a cada um segundo o seu caminho.

Na verdade, Deus não procederá impiamente, nem o Todo-Poderoso perverterá o juízo.

Quem lhe entregou o governo da terra? E quem lhe deu autoridade sobre o mundo todo?

Se ele retirasse para si o seu espírito, e recolhesse para si o seu fôlego,

toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o pó.

Se, pois, há em ti entendimento, ouve isto, inclina os ouvidos Acaso quem odeia o direito governará? Quererás tu condenar aquele que é justo e poderoso?

aquele que diz a um rei: ó vil? e aos príncipes: ó ímpios?

que não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque todos são obra de suas mãos?

Eles num momento morrem; e ã meia-noite os povos são perturbados, e passam, e os poderosos são levados não por mão humana.

Porque os seus olhos estão sobre os caminhos de cada um, e ele vê todos os seus passos.

Não há escuridão nem densas trevas, onde se escondam os obradores da iniqüidade.

Porque Deus não precisa observar por muito tempo o homem para que este compareça perante ele em juízo.

Ele quebranta os fortes, sem inquiriçao, e põe outros em lugar deles.

Pois conhecendo ele as suas obras, de noite os transtorna, e ficam esmagados.

Ele os fere como ímpios, ã vista dos circunstantes;

porquanto se desviaram dele, e não quiseram compreender nenhum de seus caminhos,

de sorte que o clamor do pobre subisse até ele, e que ouvisse o clamor dos aflitos.

Se ele dá tranqüilidade, quem então o condenará? Se ele encobrir o rosto, quem então o poderá contemplar, quer seja uma nação, quer seja um homem só?

para que o ímpio não reine, e não haja quem iluda o povo.

Pois, quem jamais disse a Deus: Sofri, ainda que não pequei;

o que não vejo, ensina-me tu; se fiz alguma maldade, nunca mais a hei de fazer?

Será a sua recompensa como queres, para que a recuses? Pois tu tens que fazer a escolha, e não eu; portanto fala o que sabes.

Os homens de entendimento dir-me-ão, e o varão sábio, que me ouvir:

Jó fala sem conhecimento, e Oxalá que Jó fosse provado até o fim; porque responde como os iníquos.

Porque ao seu pecado acrescenta a rebelião; entre nós bate as palmas, e multiplica contra Deus as suas palavras.

Disse mais Eliú:

Tens por direito dizeres: Maior é a minha justiça do que a de Deus?

Porque dizes: Que me aproveita? Que proveito tenho mais do que se eu tivera pecado?

Eu te darei respostas, a ti e aos teus amigos contigo.

Atenta para os céus, e vê; e contempla o firmamento que é mais alto do que tu.

Se pecares, que efetuarás contra ele? Se as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás com isso?

Se fores justo, que lhe darás, ou que receberá ele da tua mão?

A tua impiedade poderia fazer mal a outro tal como tu; e a tua justiça poderia aproveitar a um filho do homem.

Por causa da multidão das opressões os homens clamam; clamam por socorro por causa do braço dos poderosos.

Mas ninguém diz: Onde está Deus meu Criador, que inspira canções durante a noite;

que nos ensina mais do que aos animais da terra, e nos faz mais sábios do que as aves do céu?

Ali clamam, porém ele não responde, por causa da arrogância os maus.

Certo é que Deus não ouve o grito da vaidade, nem para ela atentará o Todo-Poderoso.

Quanto menos quando tu dizes que não o vês. A causa está perante ele; por isso espera nele.

Mas agora, porque a sua ira ainda não se exerce, nem grandemente considera ele a arrogância,

por isso abre Jó em vão a sua boca, e sem conhecimento multiplica palavras.

Prosseguiu ainda Eliú e disse:

Espera-me um pouco, e mostrar-te-ei que ainda há razões a favor de Deus.

De longe trarei o meu conhecimento, e ao meu criador atribuirei a justiça.

Pois, na verdade, as minhas palavras não serão falsas; contigo está um que tem perfeito conhecimento.

Eis que Deus é mui poderoso, contudo a ninguém despre grande é no poder de entendimento.

Ele não preserva a vida do ímpio, mas faz justiça aos aflitos.

Do justo não aparta os seus olhos; antes com os reis no trono os faz sentar para sempre, e assim são exaltados.

E se estão presos em grilhões, e amarrados com cordas de aflição,

então lhes faz saber a obra deles, e as suas transgressões, porquanto se têm portado com soberba.

E abre-lhes o ouvido para a instrução, e ordena que se convertam da iniqüidade.

Se o ouvirem, e o servirem, acabarão seus dias em prosperidade, e os seus anos em delícias.

Mas se não o ouvirem, ã espada serão passados, e expirarão sem conhecimento.

Assim os ímpios de coração amontoam, a sua ira; e quando Deus os põe em grilhões, não clamam por socorro.

Eles morrem na mocidade, e a sua vida perece entre as prostitutas.

Ao aflito livra por meio da sua aflição, e por meio da opressão lhe abre os ouvidos.

Assim também quer induzir-te da angústia para um lugar espaçoso, em que não há aperto; e as iguarias da tua mesa serão cheias de gordura.

Mas tu estás cheio do juízo do ímpio; o juízo e a justiça tomam conta de ti.

Cuida, pois, para que a ira não te induza a escarnecer, nem te desvie a grandeza do resgate.

Prevalecerá o teu clamor, ou todas as forças da tua fortaleza, para que não estejas em aperto?

Não suspires pela noite, em que os povos sejam tomados do seu lugar.

Guarda-te, e não declines para a iniqüidade; porquanto isso escolheste antes que a aflição.

Eis que Deus é excelso em seu poder; quem é ensinador como ele?

Quem lhe prescreveu o seu caminho? Ou quem poderá dizer: Tu praticaste a injustiça?

Lembra-te de engrandecer a sua obra, de que têm cantado os homens.

Todos os homens a vêem; de longe a contempla o homem.

Eis que Deus é grande, e nós não o conhecemos, e o número dos seus anos não se pode esquadrinhar.

Pois atrai a si as gotas de água, e do seu vapor as destila em chuva,

que as nuvens derramam e gotejam abundantemente sobre o homem.

Poderá alguém entender as dilatações das nuvens, e os trovões do seu pavilhão?

Eis que ao redor de si estende a sua luz, e cobre o fundo do mar.

Pois por estas coisas julga os povos e lhes dá mantimento em abundância.

Cobre as mãos com o relâmpago, e dá-lhe ordem para que fira o alvo.

O fragor da tempestade dá notícia dele; até o gado pressente a sua aproximação.

Sobre isso também treme o meu coração, e salta do seu lugar.

Dai atentamente ouvidos ao estrondo da voz de Deus e ao sonido que sai da sua boca.

Ele o envia por debaixo de todo o céu, e o seu relâmpago até os confins da terra.

Depois do relâmpago ruge uma grande voz; ele troveja com a sua voz majestosa; e não retarda os raios, quando é ouvida a sua voz.

Com a sua voz troveja Deus maravilhosamente; faz grandes coisas, que nós não compreendemos.

Pois ã neve diz: Cai sobre a terra; como também Ele sela as mãos de todo homem, para que todos saibam que ele os fez.

E as feras entram nos esconderijos e ficam nos seus covis.

Da recâmara do sul sai o tufão, e do norte o frio.

Ao sopro de Deus forma-se o gelo, e as largas águas são congeladas.

Também de umidade carrega as grossas nuvens; as nuvens espalham relâmpagos.

Fazem evoluções sob a sua direção, para efetuar tudo quanto lhes ordena sobre a superfície do mundo habitável:

seja para disciplina, ou para a sua terra, ou para beneficência, que as faça vir.

A isto, Jó, inclina os teus ouvidos; pára e considera as obras maravilhosas de Deus.

Sabes tu como Deus lhes dá as suas ordens, e faz resplandecer o relâmpago da sua nuvem?

Compreendes o equilíbrio das nuvens, e as maravilhas daquele que é perfeito nos conhecimentos;

tu cujas vestes são quentes, quando há calma sobre a terra por causa do vento sul?

Acaso podes, como ele, estender o firmamento, que é sólido como um espelho fundido?

Ensina-nos o que lhe diremos; pois nós nada poderemos pôr em boa ordem, por causa das trevas.

Contar-lhe-ia alguém que eu quero falar. Ou desejaria um homem ser devorado?

E agora o homem não pode olhar para o sol, que resplandece no céu quando o vento, tendo passado, o deixa limpo.

Do norte vem o áureo esplendor; em Deus há tremenda majestade.

Quanto ao Todo-Poderoso, não o podemos compreender; grande é em poder e justiça e pleno de retidão; a ninguém, pois, oprimirá.

Por isso o temem os homens; ele não respeita os que se julgam sábios.