Job – Jó 21-1

A Bíblia Online > Antigo Testamento > Livros Poéticos e Sapienciais > > Job – Jó 21-1 [Jó 21:1 - Jó 21:34]

Então respondeu:

Ouvi atentamente as minhas palavras; seja isto a vossa consolação.

Sofrei-me, e eu falarei; e, havendo eu falado, zombai.

É porventura do homem que eu me queixo? Mas, ainda que assim fosse, não teria motivo de me impacientar?

Olhai para mim, e pasmai, e ponde a mão sobre a boca.

Quando me lembro disto, me perturbo, e a minha carne estremece de horror.

Por que razão vivem os ímpios, envelhecem, e ainda se robustecem em poder?

Os seus filhos se estabelecem ã vista deles, e os seus descendentes perante os seus olhos.

As suas casas estão em paz, sem temor, e a vara de Deus não está sobre eles.

O seu touro gera, e não falha; pare a sua vaca, e não aborta.

Eles fazem sair os seus pequeninos, como a um rebanho, e suas crianças andam saltando.

Levantam a voz, ao som do tamboril e da harpa, e regozijam-se ao som da flauta.

Na prosperidade passam os seus dias, e num momento descem ao Seol.

Eles dizem a Deus: retira-te de nós, pois não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos.

Que é o Todo-Poderoso, para que nós o sirvamos? E que nos aproveitará, se lhe fizermos orações?

Vede, porém, que eles não têm na mão a prosperidade; esteja longe de mim o conselho dos ímpios!

Quantas vezes sucede que se apague a lâmpada dos ímpios? que lhes sobrevenha a sua destruição? que Deus na sua ira lhes reparta dores?

que eles sejam como a palha diante do vento, e como a pragana, que o redemoinho arrebata?

Deus, dizeis vós, reserva a iniqüidade do pai para seus filhos, mas é a ele mesmo que Deus deveria punir, para que o conheça.

Vejam os seus próprios olhos a sua ruina, e beba ele do furor do Todo-Poderoso.

Pois, que lhe importa a sua casa depois de morto, quando lhe for cortado o número dos seus meses?

Acaso se ensinará ciência a Deus, a ele que julga os excelsos?

Um morre em plena prosperidade, inteiramente sossegado e tranqüilo;

com os seus baldes cheios de leite, e a medula dos seus ossos umedecida.

Outro, ao contrário, morre em amargura de alma, não havendo provado do bem.

Juntamente jazem no pó, e os vermes os cobrem.

Eis que conheço os vossos pensamentos, e os maus intentos com que me fazeis injustiça.

Pois dizeis: Onde está a casa do príncipe, e onde a tenda em que morava o ímpio?

Porventura não perguntastes aos viandantes? e não aceitais o seu testemunho,

de que o mau é preservado no dia da destruição, e poupado no dia do furor?

Quem acusará diante dele o seu caminho? e quem lhe dará o pago do que fez?

Ele é levado para a sepultura, e vigiam-lhe o túmulo.

Os torrões do vale lhe são doces, e o seguirão todos os homens, como ele o fez aos inumeráveis que o precederam.

Como, pois, me ofereceis consolações vãs, quando nas vossas respostas só resta falsidade?

Elifaz

Então respondeu Elifaz, o temanita:

Pode o homem ser de algum proveito a Deus? Antes a si mesmo é que o prudenté será proveitoso.

Tem o Todo-Poderoso prazer em que tu sejas justo, ou lucro em que tu faças perfeitos os teus caminhos?

É por causa da tua reverência que te repreende, ou que entra contigo em juízo?

Não é grande a tua malícia, e sem termo as tuas iniqüidades?

Pois sem causa tomaste penhôres a teus irmaos e aos nus despojaste dos vestidos.

Não deste ao cansado água a beber, e ao faminto retiveste o pão.

Mas ao poderoso pertencia a terra, e o homem acatado habitava nela.

Despediste vazias as viúvas, e os braços dos órfãos foram quebrados.

Por isso é que estás cercado de laços, e te perturba um pavor repentino,

ou trevas de modo que nada podes ver, e a inundação de águas te cobre.

Não está Deus na altura do céu? Olha para as mais altas estrelas, quão elevadas estão!

E dizes: Que sabe Deus? Pode ele julgar através da escuridão?

Grossas nuvens o encobrem, de modo que não pode ver; e ele passeia em volta da abóbada do céu.

Queres seguir a vereda antiga, que pisaram os homens iníquos?

Os quais foram arrebatados antes do seu tempo; e o seu fundamento se derramou qual um rio.

Diziam a Deus: retira-te de nós; e ainda: Que é que o Todo-Poderoso nos pode fazer?

Contudo ele encheu de bens as suas casas. Mas longe de mim estejam os conselhos dos ímpios!

Os justos o vêem, e se alegram: e os inocentes escarnecem deles,

dizendo: Na verdade são exterminados os nossos adversários, e o fogo consumiu o que deixaram.

Apega-te, pois, a Deus, e tem paz, e assim te sobrevirá o bem.

Aceita, peço-te, a lei da sua boca, e põe as suas palavras no teu coração.

Se te voltares para o Todo-Poderoso, serás edificado; se lançares a iniqüidade longe da tua tenda,

e deitares o teu tesouro no pó, e o ouro de Ofir entre as pedras dos ribeiros,

então o Todo-Poderoso será o teu tesouro, e a tua prata preciosa.

Pois então te deleitarás no Todo-Poderoso, e levantarás o teu rosto para Deus.

Tu orarás a ele, e ele te ouvirá; e pagarás os teus votos.

Também determinarás algum negócio, e ser-te-á firme, e a luz brilhará em teus caminhos.

Quando te abaterem, dirás: haja exaltação! E Deus salvará ao humilde.

E livrará até o que não é inocente, que será libertado pela pureza de tuas mãos.

Job – Jó 23-1

A Bíblia Online > Antigo Testamento > Livros Poéticos e Sapienciais > > Job – Jó 23-1 [Jó 23:1 - Jó 24:25]

Então respondeu:

Ainda hoje a minha queixa está em amargura; o peso da mão dele é maior do que o meu gemido.

Ah, se eu soubesse onde encontrá-lo, e pudesse chegar ao seu tribunal!

Exporia ante ele a minha causa, e encheria a minha boca de argumentos.

Saberia as palavras com que ele me respondesse, e entenderia o que me dissesse.

Acaso contenderia ele comigo segundo a grandeza do seu poder? Não; antes ele me daria ouvidos.

Ali o reto pleitearia com ele, e eu seria absolvido para sempre por meu Juiz.

Eis que vou adiante, mas não está ali; volto para trás, e não o percebo;

procuro-o ã esquerda, onde ele opera, mas não o vejo; viro-me para a direita, e não o diviso.

Mas ele sabe o caminho por que eu ando; provando-me ele, sairei como o ouro.

Os meus pés se mantiveram nas suas pisadas; guardei o seu caminho, e não me desviei dele.

Nunca me apartei do preceito dos seus lábios, e escondi no meu peito as palavras da sua boca.

Mas ele está resolvido; quem então pode desviá-lo? E o que ele quiser, isso fará.

Pois cumprirá o que está ordenado a meu respeito, e muitas coisas como estas ainda tem consigo.

Por isso me perturbo diante dele; e quando considero, tenho medo dele.

Deus macerou o meu coração; o Todo-Poderoso me perturbou.

Pois não estou desfalecido por causa das trevas, nem porque a escuridão cobre o meu rosto.

Por que o Todo-Poderoso não designa tempos? e por que os que o conhecem não vêem os seus dias?

Há os que removem os limites; roubam os rebanhos, e os apascentam.

Levam o jumento do órfão, tomam em penhor o boi da viúva.

Desviam do caminho os necessitados; e os oprimidos da terra juntos se escondem.

Eis que, como jumentos monteses no deserto, saem eles ao seu trabalho, procurando no ermo a presa que lhes sirva de sustento para seus filhos.

No campo segam o seu pasto, e vindimam a vinha do ímpio.

Passam a noite nus, sem roupa, não tendo coberta contra o frio.

Pelas chuvas das montanhas são molhados e, por falta de abrigo, abraçam-se com as rochas.

Há os que arrancam do peito o órfão, e tomam o penhor do pobre;

fazem que estes andem nus, sem roupa, e, embora famintos, carreguem os molhos.

Espremem o azeite dentro dos muros daqueles homens; pisam os seus lagares, e ainda têm sede.

Dentro das cidades gemem os moribundos, e a alma dos feridos clama; e contudo Deus não considera o seu clamor.

Há os que se revoltam contra a luz; não conhecem os caminhos dela, e não permanecem nas suas veredas.

O homicida se levanta de madrugada, mata o pobre e o necessitado, e de noite torna-se ladrão.

Também os olhos do adúltero aguardam o crepúsculo, dizendo: Ninguém me verá; e disfarça o rosto.

Nas trevas minam as casas; de dia se conservam encerrados; não conhecem a luz.

Pois para eles a profunda escuridão é a sua manhã; porque são amigos das trevas espessas.

São levados ligeiramente sobre a face das águas; maldita é a sua porção sobre a terra; não tornam pelo caminho das vinhas.

A sequidão e o calor desfazem as, águas da neve; assim faz o Seol aos que pecaram.

A madre se esquecerá dele; os vermes o comerão gostosamente; não será mais lembrado; e a iniqüidade se quebrará como árvore.

Ele despoja a estéril que não dá ã luz, e não faz bem ã viúva.

Todavia Deus prolonga a vida dos valentes com a sua força; levantam-se quando haviam desesperado da vida.

Se ele lhes dá descanso, estribam-se, nisso; e os seus olhos estão sobre os caminhos deles.

Eles se exaltam, mas logo desaparecem; são abatidos, colhidos como os demais, e cortados como as espigas do trigo.

Se não é assim, quem me desmentirá e desfará as minhas palavras?

Bildade

Então respondeu Bildade, o suíta:

Com Deus estão domínio e temor; ele faz reinar a paz nas suas alturas.

Acaso têm número os seus exércitos? E sobre quem não se levanta a sua luz?

Como, pois, pode o homem ser justo diante de Deus, e como pode ser puro aquele que nasce da mulher?

Eis que até a lua não tem brilho, e as estrelas não são puras aos olhos dele;

quanto menos o homem, que é um verme, e o filho do homem, que é um vermezinho!

Job – Jó 26-1

A Bíblia Online > Antigo Testamento > Livros Poéticos e Sapienciais > > Job – Jó 26-1 [Jó 26:1 - Jó 31:40]

Então respondeu:

Como tens ajudado ao que não tem força e sustentado o braço que não tem vigor!

como tens aconselhado ao que não tem sabedoria, e plenamente tens revelado o verdadeiro conhecimento!

Para quem proferiste palavras? E de quem é o espírito que saiu de ti?

Os mortos tremem debaixo das águas, com os que ali habitam.

O Seol está nu perante Deus, e não há coberta para o Abadom.

Ele estende o norte sobre o vazio; suspende a terra sobre o nada.

Prende as águas em suas densas nuvens, e a nuvem não se rasga debaixo delas.

Encobre a face do seu trono, e sobre ele estende a sua nuvem.

Marcou um limite circular sobre a superfície das águas, onde a luz e as trevas se confinam.

As colunas do céu tremem, e se espantam da sua ameaça.

Com o seu poder fez sossegar o mar, e com o seu entendimento abateu a Raabe.

Pelo seu sopro ornou o céu; a sua mão traspassou a serpente veloz.

Eis que essas coisas são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pequeno é o sussurro que dele, ouvimos! Mas o trovão do seu poder, quem o poderá entender?

E prosseguindo Jó em seu discurso, disse:

Vive Deus, que me tirou o direito, e o Todo-Poderoso, que me amargurou a alma;

enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus no meu nariz,

não falarão os meus lábios iniqüidade, nem a minha língua pronunciará engano.

Longe de mim que eu vos dê razão; até que eu morra, nunca apartarei de mim a minha integridade.

ë minha justiça me apegarei e não a largarei; o meu coração não reprova dia algum da minha vida.

Seja como o ímpio o meu inimigo, e como o perverso aquele que se levantar contra mim.

Pois qual é a esperança do ímpio, quando Deus o cortar, quando Deus lhe arrebatar a alma?

Acaso Deus lhe ouvirá o clamor, sobrevindo-lhe a tribulação?

Deleitar-se-á no Todo-Poderoso, ou invocará a Deus em todo o tempo?

Ensinar-vos-ei acerca do poder de Deus, e não vos encobrirei o que está com o Todo-Poderoso.

Eis que todos vós já vistes isso; por que, pois, vos entregais completamente ã vaidade?

Esta é da parte de Deus a porção do ímpio, e a herança que os opressores recebem do Todo-Poderoso:

Se os seus filhos se multiplicarem, será para a espada; e a sua prole não se fartará de pão.

Os que ficarem dele, pela peste serão sepultados, e as suas viúvas não chorarão.

Embora amontoe prata como pó, e acumule vestes como barro,

ele as pode acumular, mas o justo as vestirá, e o inocente repartirá a prata.

A casa que ele edifica é como a teia da aranha, e como a cabana que o guarda faz.

Rico se deita, mas não o fará mais; abre os seus olhos, e já se foi a sua riqueza.

Pavores o alcançam como um dilúvio; de noite o arrebata a tempestade.

O vento oriental leva-o, e ele se vai; sim, varre-o com ímpeto do seu lugar:

Pois atira contra ele, e não o poupa, e ele foge precipitadamente do seu poder.

Bate palmas contra ele, e assobia contra ele do seu lugar.

Na verdade, há minas donde se extrai a prata, e também lugar onde se refina o ouro:

O ferro tira-se da terra, e da pedra se funde o cobre.

Os homens põem termo Abrem um poço de mina longe do lugar onde habitam; são esquecidos pelos viajantes, ficando pendentes longe dos homens, e oscilam de um lado para o outro.

Quanto ã terra, dela procede o pão, mas por baixo é revolvida como por fogo.

As suas pedras são o lugar de safiras, e têm pó de ouro.

A ave de rapina não conhece essa vereda, e não a viram os olhos do falcão.

Nunca a pisaram feras altivas, nem o feroz leão passou por ela.

O homem estende a mão contra a pederneira, e revolve os montes desde as suas raízes.

Corta canais nas pedras, e os seus olhos descobrem todas as coisas preciosas.

Ele tapa os veios d’água para que não gotejem; e tira para a luz o que estava escondido.

Mas onde se achará a sabedoria? E onde está o lugar do entendimento?

O homem não lhe conhece o caminho; nem se acha ela na terra dos viventes.

O abismo diz: Não está em mim; e o mar diz: Ela não está comigo.

Não pode ser comprada com ouro fino, nem a peso de prata se trocará.

Nem se pode avaliar em ouro fino de Ofir, nem em pedras preciosas de berilo, ou safira.

Com ela não se pode comparar o ouro ou o vidro; nem se trocara por jóias de ouro fino.

Não se fará menção de coral nem de cristal; porque a aquisição da sabedoria é melhor que a das pérolas.

Não se lhe igualará o topázio da Etiópia, nem se pode comprar por ouro puro.

Donde, pois, vem a sabedoria? Onde está o lugar do entendimento?

Está encoberta aos olhos de todo vivente, e oculta O Abadom e a morte dizem: Ouvimos com os nossos ouvidos um rumor dela.

Deus entende o seu caminho, e ele sabe o seu lugar.

Porque ele perscruta até as extremidades da terra, sim, ele vê tudo o que há debaixo do céu.

Quando regulou o peso do vento, e fixou a medida das águas;

quando prescreveu leis para a chuva e caminho para o relâmpago dos trovões;

então viu a sabedoria e a manifestou; estabeleceu-a, e também a esquadrinhou.

E disse ao homem: Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e o apartar-se do mal é o entendimento.

E prosseguindo Jó no seu discurso, disse:

Ah! quem me dera ser como eu fui nos meses do passado, como nos dias em que Deus me guardava;

quando a sua lâmpada luzia sobre o minha cabeça, e eu com a sua luz caminhava através das trevas;

como era nos dias do meu vigor, quando o íntimo favor de Deus estava sobre a minha tenda;

quando o Todo-Poderoso ainda estava comigo, e os meus filhos em redor de mim;

quando os meus passos eram banhados em leite, e a rocha me deitava ribeiros de azeite!

Quando eu saía para a porta da cidade, e na praça preparava a minha cadeira,

os moços me viam e se escondiam, e os idosos se levantavam e se punham em pé;

os príncipes continham as suas palavras, e punham a mão sobre a sua boca;

a voz dos nobres emudecia, e a língua se lhes pegava ao paladar.

Pois, ouvindo-me algum ouvido, me tinha por bem-aventurado; e vendo-me algum olho, dava testemunho de mim;

porque eu livrava o miserável que clamava, e o órfão que não tinha quem o socorresse.

A bênção do que estava a perecer vinha sobre mim, e eu fazia rejubilar-se o coração da viúva.

vestia-me da retidão, e ela se vestia de mim; como manto e diadema era a minha justiça.

Fazia-me olhos para o cego, e pés para o coxo;

dos necessitados era pai, e a causa do que me era desconhecido examinava com diligência.

E quebrava os caninos do perverso, e arrancava-lhe a presa dentre os dentes.

Então dizia eu: No meu ninho expirarei, e multiplicarei os meus dias como a areia;

as minhas raízes se estendem até as águas, e o orvalho fica a noite toda sobre os meus ramos;

a minha honra se renova em mim, e o meu arco se revigora na minhã mão.

A mim me ouviam e esperavam, e em silêncio atendiam ao meu conselho.

Depois de eu falar, nada replicavam, e minha palavra destilava sobre eles;

esperavam-me como ã chuva; e abriam a sua boca como ã chuva tardia.

Eu lhes sorria quando não tinham confiança; e não desprezavam a luz do meu rosto;

eu lhes escolhia o caminho, assentava-me como chefe, e habitava como rei entre as suas tropas, como aquele que consola os aflitos.

Mas agora zombam de mim os de menos idade do que eu, cujos pais teria eu desdenhado de pôr com os cães do meu rebanho.

Pois de que me serviria a força das suas mãos, homens nos quais já pereceu o vigor?

De míngua e fome emagrecem; andam roendo pelo deserto, lugar de ruínas e desolação.

Apanham malvas junto aos arbustos, e o seu mantimento são as raízes dos zimbros.

São expulsos do meio dos homens, que gritam atrás deles, como atrás de um ladrão.

Têm que habitar nos desfiladeiros sombrios, nas cavernas da terra e dos penhascos.

Bramam entre os arbustos, ajuntam-se debaixo das urtigas.

São filhos de insensatos, filhos de gente sem nome; da terra foram enxotados.

Mas agora vim a ser a sua canção, e lhes sirvo de provérbio.

Eles me abominam, afastam-se de mim, e no meu rosto não se privam de cuspir.

Porquanto Deus desatou a minha corda e me humilhou, eles sacudiram de si o freio perante o meu rosto.

ë direita levanta-se gente vil; empurram os meus pés, e contra mim erigem os seus caminhos de destruição.

Estragam a minha vereda, promovem a minha calamidade; não há quem os detenha.

Vêm como por uma grande brecha, por entre as ruínas se precipitam.

Sobrevieram-me pavores; é perseguida a minha honra como pelo vento; e como nuvem passou a minha felicidade.

E agora dentro de mim se derrama a minha alma; os dias da aflição se apoderaram de mim.

De noite me são traspassados os ossos, e o mal que me corrói não descansa.

Pela violência do mal está desfigurada a minha veste; como a gola da minha túnica, me aperta.

Ele me lançou na lama, e fiquei semelhante ao pó e ã cinza.

Clamo a ti, e não me respondes; ponho-me em pé, e não atentas para mim.

Tornas-te cruel para comigo; com a força da tua mão me persegues.

Levantas-me sobre o vento, fazes-me cavalgar sobre ele, e dissolves-me na tempestade.

Pois eu sei que me levarás ã morte, e ã casa do ajuntamento destinada a todos os viventes.

Contudo não estende a mão quem está a cair? ou não clama por socorro na sua calamidade?

Não chorava eu sobre aquele que estava aflito? ou não se angustiava a minha alma pelo necessitado?

Todavia aguardando eu o bem, eis que me veio o mal, e esperando eu a luz, veio a escuridão.

As minhas entranhas fervem e não descansam; os dias da aflição me surpreenderam.

Denegrido ando, mas não do sol; levanto-me na congregação, e clamo por socorro.

Tornei-me irmão dos chacais, e companheiro dos avestruzes.

A minha pele enegrece e se me cai, e os meus ossos estão queimados do calor.

Pelo que se tornou em pranto a minha harpa, e a minha flauta em voz dos que choram.

Fiz pacto com os meus olhos; como, pois, os fixaria numa virgem?

Pois que porção teria eu de Deus lá de cima, e que herança do Todo-Poderoso lá do alto?

Não é a destruição para o perverso, e o desastre para os obradores da iniqüidade?

Não vê ele os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?

Se eu tenho andado com falsidade, e se o meu pé se tem apressado após o engano

(pese-me Deus em balanças fiéis, e conheça a minha integridade);

se os meus passos se têm desviado do caminho, e se o meu coraçao tem seguido os meus olhos, e se qualquer mancha se tem pegado então semeie eu e outro coma, e seja arrancado o produto do meu campo.

Se o meu coração se deixou seduzir por causa duma mulher, ou se eu tenho armado traição ã porta do meu próximo,

então moa minha mulher para outro, e outros se encurvem sobre ela.

Pois isso seria um crime infame; sim, isso seria uma iniqüidade para ser punida pelos juízes;

porque seria fogo que consome até Abadom, e desarraigaria toda a minha renda.

Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando eles pleitearam comigo,

então que faria eu quando Deus se levantasse? E quando ele me viesse inquirir, que lhe responderia?

Aquele que me formou no ventre não o fez também a meu servo? E não foi um que nos plasmou na madre?

Se tenho negado aos pobres o que desejavam, ou feito desfalecer os olhos da viúva,

ou se tenho comido sozinho o meu bocado, e não tem comido dele o órfão também

(pois desde a minha mocidade o órfão cresceu comigo como com seu pai, e a viúva, tenho-a guiado desde o ventre de minha mãe);

se tenho visto alguém perecer por falta de roupa, ou o necessitado não ter com que se cobrir;

se os seus lombos não me abençoaram, se ele não se aquentava com os velos dos meus cordeiros;

se levantei a minha mão contra o órfao, porque na porta via a minha ajuda;

então caia do ombro a minha espádua, e separe-se o meu braço da sua juntura.

Pois a calamidade vinda de Deus seria para mim um horror, e eu não poderia suportar a sua majestade.

Se do ouro fiz a minha esperança, ou disse ao ouro fino: Tu és a minha confiança;

se me regozijei por ser grande a minha riqueza, e por ter a minha mão alcança o muito;

se olhei para o sol, quando resplandecia, ou para a lua, quando ela caminhava em esplendor,

e o meu coração se deixou enganar em oculto, e a minha boca beijou a minha mão;

isso também seria uma iniqüidade para ser punida pelos juízes; pois assim teria negado a Deus que está lá em cima.

Se me regozijei com a ruína do que me tem ódio, e se exultei quando o mal lhe sobreveio

(mas eu não deixei pecar a minha boca, pedindo com imprecação a sua morte);

se as pessoas da minha tenda não disseram: Quem há que não se tenha saciado com carne provida por ele?

O estrangeiro não passava a noite na rua; mas eu abria as minhas portas ao viandante;

se, como Adão, encobri as minhas transgressões, ocultando a minha iniqüidade no meu seio,

porque tinha medo da grande multidão, e o desprezo das famílias me aterrorizava, de modo que me calei, e não saí da porta…

Ah! quem me dera um que me ouvisse! Eis a minha defesa, que me responda o Todo-Poderoso! Oxalá tivesse eu a acusação escrita pelo meu adversário!

Por certo eu a levaria sobre o ombro, sobre mim a ataria como coroa.

Eu lhe daria conta dos meus passos; como príncipe me chegaria a ele

Se a minha terra clamar contra mim, e se os seus sulcos juntamente chorarem;

se comi os seus frutos sem dinheiro, ou se fiz que morressem os seus donos;

por trigo me produza cardos, e por cevada joio. Acabaram-se as palavras de Jó.