Eliú

E aqueles três homens cessaram de responder a ; porque era justo aos seus próprios olhos.

Então se acendeu a ira de Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão; acendeu-se a sua ira contra Jó, porque este se justificava a si mesmo, e não a Deus.

Também contra os seus três amigos se acendeu a sua ira, porque não tinham achado o que responder, e contudo tinham condenado a Jó.

Ora, Eliú havia esperado para falar a Jó, porque eles eram mais idosos do que ele.

Quando, pois, Eliú viu que não havia resposta na boca daqueles três homens, acendeu-se-lhe a ira.

Então respondeu Eliú, filho de Baraquel, o buzita, dizendo: Eu sou de pouca idade, e vós sois, idosos; arreceei-me e temi de vos declarar a minha opinião.

Dizia eu: Falem os dias, e a multidão dos anos ensine a sabedoria.

Há, porém, um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz entendido.

Não são os velhos que são os sábios, nem os anciãos que entendem o que é reto.

Pelo que digo: Ouvi-me, e também eu declararei a minha opinião.

Eis que aguardei as vossas palavras, escutei as vossas considerações, enquanto buscáveis o que dizer.

Eu, pois, vos prestava toda a minha atenção, e eis que não houve entre vós quem convencesse a Jó, nem quem respondesse pelo que não digais: Achamos a sabedoria; Deus é que pode derrubá-lo, e não o homem.

Ora ele não dirigiu contra mim palavra alguma, nem lhe responderei com as vossas palavras.

Estão pasmados, não respondem mais; faltam-lhes as palavras.

Hei de eu esperar, porque eles não falam, porque já pararam, e não respondem mais?

Eu também darei a minha resposta; eu também declararei a minha opinião.

Pois estou cheio de palavras; o espírito dentro de mim me constrange.

Eis que o meu peito é como o mosto, sem respiradouro, como odres novos que estão para arrebentar.

Falarei, para que ache alívio; abrirei os meus lábios e responderei:

Que não faça eu acepção de pessoas, nem use de lisonjas para com o homem.

Porque não sei usar de lisonjas; do contrário, em breve me levaria o meu Criador.

Ouve, pois, as minhas palavras, ó Jó, e dá ouvidos a todas as minhas declaraçoes.

Eis que já abri a minha boca; já falou a minha língua debaixo do meu paladar.

As minhas palavras declaram a integridade do meu coração, e os meus lábios falam com sinceridade o que sabem.

O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida.

Se podes, responde-me; põe as tuas palavras em ordem diante de mim; apresenta-te.

Eis que diante de Deus sou o que tu és; eu também fui formado do barro.

Eis que não te perturbará nenhum medo de mim, nem será pesada sobre ti a minha mão.

Na verdade tu falaste aos meus ouvidos, e eu ouvi a voz das tuas palavras. Dizias:

Limpo estou, sem transgressão; puro sou, e não há em mim iniqüidade.

Eis que Deus procura motivos de inimizade contra mim, e me considera como o seu inimigo.

Põe no tronco os meus pés, e observa todas as minhas veredas.

Eis que nisso não tens razão; eu te responderei; porque Deus e maior do que o homem.

Por que razão contendes com ele por não dar conta dos seus atos?

Pois Deus fala de um modo, e ainda de outro se o homem não lhe atende.

Em sonho ou em visão de noite, quando cai sono profundo sobre os homens, quando adormecem na cama;

então abre os ouvidos dos homens, e os atemoriza com avisos,

para apartar o homem do seu desígnio, e esconder do homem a soberba;

para reter a sua alma da cova, e a sua vida de passar pela espada.

Também é castigado na sua cama com dores, e com incessante contenda nos seus ossos;

de modo que a sua vida abomina o pão, e a sua alma a comida apetecível.

Consome-se a sua carne, de maneira que desaparece, e os seus ossos, que não se viam, agora aparecem.

A sua alma se vai chegando ã cova, e a sua vida aos que trazem a morte.

Se com ele, pois, houver um anjo, um intérprete, um entre mil, para declarar ao homem o que lhe é justo,

então terá compaixão dele, e lhe dirá: Livra-o, para que não desça ã cova; já achei resgate.

Sua carne se reverdecerá mais do que na sua infância; e ele tornará aos dias da sua juventude.

Deveras orará a Deus, que lhe será propício, e o fará ver a sua face com júbilo, e restituirá ao homem a sua justiça.

Cantará diante dos homens, e dirá: Pequei, e perverti o direito, o que de nada me aproveitou.

Mas Deus livrou a minha alma de ir para a cova, e a minha vida verá a luz.

Eis que tudo isto Deus faz duas e três vezes para com o homem,

para reconduzir a sua alma da cova, a fim de que seja iluminado com a luz dos viventes.

Escuta, pois, ó Jó, ouve-me; cala-te, e eu falarei.

Se tens alguma coisa que dizer, responde-me; fala, porque desejo justificar-te.

Se não, escuta-me tu; cala-te, e ensinar-te-ei a sabedoria.

Prosseguiu Eliú, dizendo:

Ouvi, vós, sábios, as minhas palavras; e vós, entendidos, inclinai os ouvidos para mim.

Pois o ouvido prova as palavras, como o paladar experimenta a comida.

O que é direito escolhamos para nós; e conheçamos entre nós o que é bom.

Pois Jó disse: Sou justo, e Deus tirou-me o direito.

Apesar do meu direito, sou considerado mentiroso; a minha ferida é incurável, embora eu esteja sem transgressão.

Que homem há como Jó, que bebe o escárnio como água,

que anda na companhia dos malfeitores, e caminha com homens ímpios?

Porque disse: De nada aproveita ao homem o comprazer-se em Deus.

Pelo que ouvi-me, vós homens de entendimento: longe de Deus o praticar a maldade, e do Todo-Poderoso o cometer a iniqüidade!

Pois, segundo a obra do homem, ele lhe retribui, e faz a cada um segundo o seu caminho.

Na verdade, Deus não procederá impiamente, nem o Todo-Poderoso perverterá o juízo.

Quem lhe entregou o governo da terra? E quem lhe deu autoridade sobre o mundo todo?

Se ele retirasse para si o seu espírito, e recolhesse para si o seu fôlego,

toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o pó.

Se, pois, há em ti entendimento, ouve isto, inclina os ouvidos Acaso quem odeia o direito governará? Quererás tu condenar aquele que é justo e poderoso?

aquele que diz a um rei: ó vil? e aos príncipes: ó ímpios?

que não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque todos são obra de suas mãos?

Eles num momento morrem; e ã meia-noite os povos são perturbados, e passam, e os poderosos são levados não por mão humana.

Porque os seus olhos estão sobre os caminhos de cada um, e ele vê todos os seus passos.

Não há escuridão nem densas trevas, onde se escondam os obradores da iniqüidade.

Porque Deus não precisa observar por muito tempo o homem para que este compareça perante ele em juízo.

Ele quebranta os fortes, sem inquiriçao, e põe outros em lugar deles.

Pois conhecendo ele as suas obras, de noite os transtorna, e ficam esmagados.

Ele os fere como ímpios, ã vista dos circunstantes;

porquanto se desviaram dele, e não quiseram compreender nenhum de seus caminhos,

de sorte que o clamor do pobre subisse até ele, e que ouvisse o clamor dos aflitos.

Se ele dá tranqüilidade, quem então o condenará? Se ele encobrir o rosto, quem então o poderá contemplar, quer seja uma nação, quer seja um homem só?

para que o ímpio não reine, e não haja quem iluda o povo.

Pois, quem jamais disse a Deus: Sofri, ainda que não pequei;

o que não vejo, ensina-me tu; se fiz alguma maldade, nunca mais a hei de fazer?

Será a sua recompensa como queres, para que a recuses? Pois tu tens que fazer a escolha, e não eu; portanto fala o que sabes.

Os homens de entendimento dir-me-ão, e o varão sábio, que me ouvir:

Jó fala sem conhecimento, e Oxalá que Jó fosse provado até o fim; porque responde como os iníquos.

Porque ao seu pecado acrescenta a rebelião; entre nós bate as palmas, e multiplica contra Deus as suas palavras.

Disse mais Eliú:

Tens por direito dizeres: Maior é a minha justiça do que a de Deus?

Porque dizes: Que me aproveita? Que proveito tenho mais do que se eu tivera pecado?

Eu te darei respostas, a ti e aos teus amigos contigo.

Atenta para os céus, e vê; e contempla o firmamento que é mais alto do que tu.

Se pecares, que efetuarás contra ele? Se as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás com isso?

Se fores justo, que lhe darás, ou que receberá ele da tua mão?

A tua impiedade poderia fazer mal a outro tal como tu; e a tua justiça poderia aproveitar a um filho do homem.

Por causa da multidão das opressões os homens clamam; clamam por socorro por causa do braço dos poderosos.

Mas ninguém diz: Onde está Deus meu Criador, que inspira canções durante a noite;

que nos ensina mais do que aos animais da terra, e nos faz mais sábios do que as aves do céu?

Ali clamam, porém ele não responde, por causa da arrogância os maus.

Certo é que Deus não ouve o grito da vaidade, nem para ela atentará o Todo-Poderoso.

Quanto menos quando tu dizes que não o vês. A causa está perante ele; por isso espera nele.

Mas agora, porque a sua ira ainda não se exerce, nem grandemente considera ele a arrogância,

por isso abre Jó em vão a sua boca, e sem conhecimento multiplica palavras.

Prosseguiu ainda Eliú e disse:

Espera-me um pouco, e mostrar-te-ei que ainda há razões a favor de Deus.

De longe trarei o meu conhecimento, e ao meu criador atribuirei a justiça.

Pois, na verdade, as minhas palavras não serão falsas; contigo está um que tem perfeito conhecimento.

Eis que Deus é mui poderoso, contudo a ninguém despre grande é no poder de entendimento.

Ele não preserva a vida do ímpio, mas faz justiça aos aflitos.

Do justo não aparta os seus olhos; antes com os reis no trono os faz sentar para sempre, e assim são exaltados.

E se estão presos em grilhões, e amarrados com cordas de aflição,

então lhes faz saber a obra deles, e as suas transgressões, porquanto se têm portado com soberba.

E abre-lhes o ouvido para a instrução, e ordena que se convertam da iniqüidade.

Se o ouvirem, e o servirem, acabarão seus dias em prosperidade, e os seus anos em delícias.

Mas se não o ouvirem, ã espada serão passados, e expirarão sem conhecimento.

Assim os ímpios de coração amontoam, a sua ira; e quando Deus os põe em grilhões, não clamam por socorro.

Eles morrem na mocidade, e a sua vida perece entre as prostitutas.

Ao aflito livra por meio da sua aflição, e por meio da opressão lhe abre os ouvidos.

Assim também quer induzir-te da angústia para um lugar espaçoso, em que não há aperto; e as iguarias da tua mesa serão cheias de gordura.

Mas tu estás cheio do juízo do ímpio; o juízo e a justiça tomam conta de ti.

Cuida, pois, para que a ira não te induza a escarnecer, nem te desvie a grandeza do resgate.

Prevalecerá o teu clamor, ou todas as forças da tua fortaleza, para que não estejas em aperto?

Não suspires pela noite, em que os povos sejam tomados do seu lugar.

Guarda-te, e não declines para a iniqüidade; porquanto isso escolheste antes que a aflição.

Eis que Deus é excelso em seu poder; quem é ensinador como ele?

Quem lhe prescreveu o seu caminho? Ou quem poderá dizer: Tu praticaste a injustiça?

Lembra-te de engrandecer a sua obra, de que têm cantado os homens.

Todos os homens a vêem; de longe a contempla o homem.

Eis que Deus é grande, e nós não o conhecemos, e o número dos seus anos não se pode esquadrinhar.

Pois atrai a si as gotas de água, e do seu vapor as destila em chuva,

que as nuvens derramam e gotejam abundantemente sobre o homem.

Poderá alguém entender as dilatações das nuvens, e os trovões do seu pavilhão?

Eis que ao redor de si estende a sua luz, e cobre o fundo do mar.

Pois por estas coisas julga os povos e lhes dá mantimento em abundância.

Cobre as mãos com o relâmpago, e dá-lhe ordem para que fira o alvo.

O fragor da tempestade dá notícia dele; até o gado pressente a sua aproximação.

Sobre isso também treme o meu coração, e salta do seu lugar.

Dai atentamente ouvidos ao estrondo da voz de Deus e ao sonido que sai da sua boca.

Ele o envia por debaixo de todo o céu, e o seu relâmpago até os confins da terra.

Depois do relâmpago ruge uma grande voz; ele troveja com a sua voz majestosa; e não retarda os raios, quando é ouvida a sua voz.

Com a sua voz troveja Deus maravilhosamente; faz grandes coisas, que nós não compreendemos.

Pois ã neve diz: Cai sobre a terra; como também Ele sela as mãos de todo homem, para que todos saibam que ele os fez.

E as feras entram nos esconderijos e ficam nos seus covis.

Da recâmara do sul sai o tufão, e do norte o frio.

Ao sopro de Deus forma-se o gelo, e as largas águas são congeladas.

Também de umidade carrega as grossas nuvens; as nuvens espalham relâmpagos.

Fazem evoluções sob a sua direção, para efetuar tudo quanto lhes ordena sobre a superfície do mundo habitável:

seja para disciplina, ou para a sua terra, ou para beneficência, que as faça vir.

A isto, Jó, inclina os teus ouvidos; pára e considera as obras maravilhosas de Deus.

Sabes tu como Deus lhes dá as suas ordens, e faz resplandecer o relâmpago da sua nuvem?

Compreendes o equilíbrio das nuvens, e as maravilhas daquele que é perfeito nos conhecimentos;

tu cujas vestes são quentes, quando há calma sobre a terra por causa do vento sul?

Acaso podes, como ele, estender o firmamento, que é sólido como um espelho fundido?

Ensina-nos o que lhe diremos; pois nós nada poderemos pôr em boa ordem, por causa das trevas.

Contar-lhe-ia alguém que eu quero falar. Ou desejaria um homem ser devorado?

E agora o homem não pode olhar para o sol, que resplandece no céu quando o vento, tendo passado, o deixa limpo.

Do norte vem o áureo esplendor; em Deus há tremenda majestade.

Quanto ao Todo-Poderoso, não o podemos compreender; grande é em poder e justiça e pleno de retidão; a ninguém, pois, oprimirá.

Por isso o temem os homens; ele não respeita os que se julgam sábios.

O Senhor fala

A Bíblia Online > Antigo Testamento > Livros Poéticos e Sapienciais > > O Senhor fala [Jó 38:1 - Jó 41:34]

Depois disso o Senhor respondeu a dum redemoinho, dizendo:

Quem é este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento?

Agora cinge os teus lombos, como homem; porque te perguntarei, e tu me responderás.

Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Faze-mo saber, se tens entendimento.

Quem lhe fixou as medidas, se é que o sabes? ou quem a mediu com o cordel?

Sobre que foram firmadas as suas bases, ou quem lhe assentou a pedra de esquina,

quando juntas cantavam as estrelas da manhã, e todos os filhos de Deus bradavam de júbilo?

Ou quem encerrou com portas o mar, quando este rompeu e saiu da madre;

quando eu lhe pus nuvens por vestidura, e escuridão por faixas,

e lhe tracei limites, pondo-lhe portas e ferrolhos,

e lhe disse: Até aqui virás, porém não mais adiante; e aqui se quebrarão as tuas ondas orgulhosas?

Desde que começaram os teus dias, deste tu ordem ã madrugada, ou mostraste ã alva o seu lugar,

para que agarrasse nas extremidades da terra, e os ímpios fossem sacudidos dela?

A terra se transforma como o barro sob o selo; e todas as coisas se assinalam como as cores dum vestido.

E dos ímpios é retirada a sua luz, e o braço altivo se quebranta.

Acaso tu entraste até os mananciais do mar, ou passeaste pelos recessos do abismo?

Ou foram-te descobertas as portas da morte, ou viste as portas da sombra da morte?

Compreendeste a largura da terra? Faze-mo saber, se sabes tudo isso.

Onde está o caminho para a morada da luz? E, quanto para que De certo tu o sabes, porque já então eras nascido, e porque é grande o número dos teus dias!

Acaso entraste nos tesouros da neve, e viste os tesouros da saraiva,

que eu tenho reservado para o tempo da angústia, para o dia da peleja e da guerra?

Onde está o caminho para o lugar em que se reparte a luz, e se espalha o vento oriental sobre a terra?

Quem abriu canais para o aguaceiro, e um caminho para o relâmpago do trovão;

para fazer cair chuva numa terra, onde não há ninguém, e no deserto, em que não há gente;

para fartar a terra deserta e assolada, e para fazer crescer a tenra relva?

A chuva porventura tem pai? Ou quem gerou as gotas do orvalho?

Do ventre de quem saiu o gelo? E quem gerou a geada do céu?

Como pedra as águas se endurecem, e a superfície do abismo se congela.

Podes atar as cadeias das Plêiades, ou soltar os atilhos do Oriom?

Ou fazer sair as constelações a seu tempo, e guiar a ursa com seus filhos?

Sabes tu as ordenanças dos céus, ou podes estabelecer o seu domínio sobre a terra?

Ou podes levantar a tua voz até as nuvens, para que a abundância das águas te cubra?

Ou ordenarás aos raios de modo que saiam? Eles te dirão: Eis-nos aqui?

Quem pôs sabedoria nas densas nuvens, ou quem deu entendimento ao meteoro?

Quem numerará as nuvens pela sabedoria? Ou os odres do céu, quem os esvaziará,

quando se funde o pó em massa, e se pegam os torrões uns aos outros?

Podes caçar presa para a leoa, ou satisfazer a fome dos filhos dos leões,

quando se agacham nos covis, e estão ã espreita nas covas?

Quem prepara ao corvo o seu alimento, quando os seus pintainhos clamam a Deus e andam vagueando, por não terem o que comer?

Sabes tu o tempo do parto das cabras montesas, ou podes observar quando é que parem as corças?

Podes contar os meses que cumprem, ou sabes o tempo do seu parto?

Encurvam-se, dão ã luz as suas crias, lançam de si a sua prole.

Seus filhos enrijam, crescem no campo livre; saem, e não tornam para elas:

Quem despediu livre o jumento montês, e quem soltou as prisões ao asno veloz,

ao qual dei o ermo por casa, e a terra salgada por morada?

Ele despreza o tumulto da cidade; não obedece os gritos do condutor.

O circuito das montanhas é o seu pasto, e anda buscando tudo o que está verde.

Quererá o boi selvagem servir-te? ou ficará junto ã tua manjedoura?

Podes amarrar o boi selvagem ao arado com uma corda, ou esterroará ele após ti os vales?

Ou confiarás nele, por ser grande a sua força, ou deixarás a seu cargo o teu trabalho?

Fiarás dele que te torne o que semeaste e o recolha ã tua eira?

Movem-se alegremente as asas da avestruz; mas é benigno o adorno da sua plumagem?

Pois ela deixa os seus ovos na terra, e os aquenta no pó,

e se esquece de que algum pé os pode pisar, ou de que a fera os pode calcar.

Endurece-se para com seus filhos, como se não fossem seus; embora se perca o seu trabalho, ela está sem temor;

porque Deus a privou de sabedoria, e não lhe repartiu entendimento.

Quando ela se levanta para correr, zomba do cavalo, e do cavaleiro.

Acaso deste força ao cavalo, ou revestiste de força o seu pescoço?

Fizeste-o pular como o gafanhoto? Terrível é o fogoso respirar das suas ventas.

Escarva no vale, e folga na sua força, e sai ao encontro dos armados.

Ri-se do temor, e não se espanta; e não torna atrás por causa da espada.

Sobre ele rangem a aljava, a lança cintilante e o dardo.

Tremendo e enfurecido devora a terra, e não se contém ao som da trombeta.

Toda vez que soa a trombeta, diz: Eia! E de longe cheira a guerra, e o trovão dos capitães e os gritos.

É pelo teu entendimento que se eleva o gavião, e estende as suas asas para o sul?

Ou se remonta a águia ao teu mandado, e põe no alto o seu ninho?

Mora nas penhas e ali tem a sua pousada, no cume das penhas, no lugar seguro.

Dali descobre a presa; seus olhos a avistam de longe.

Seus filhos chupam o sangue; e onde há mortos, ela aí está.

Disse mais o Senhor a Jó:

Contenderá contra o Todo-Poderoso o censurador? Quem assim argúi a Deus, responda a estas coisas.

Então Jó respondeu ao Senhor, e disse:

Eis que sou vil; que te responderia eu? Antes ponho a minha mão sobre a boca.

Uma vez tenho falado, e não replicarei; ou ainda duas vezes, porém não prosseguirei.

Então, do meio do redemoinho, o Senhor respondeu a Jó:

Cinge agora os teus lombos como homem; eu te perguntarei a ti, e tu me responderás.

Farás tu vão também o meu juízo, ou me condenarás para te justificares a ti?

Ou tens braço como Deus; ou podes trovejar com uma voz como a dele?

Orna-te, pois, de excelência e dignidade, e veste-te de glória e de esplendor.

Derrama as inundações da tua ira, e atenta para todo soberbo, e abate-o.

Olha para todo soberbo, e humilha-o, e calca aos pés os ímpios onde estão.

Esconde-os juntamente no pó; ata-lhes os rostos no lugar escondido.

Então também eu de ti confessarei que a tua mão direita te poderá salvar.

Contempla agora o hipopótamo, que eu criei como a ti, que come a erva como o boi.

Eis que a sua força está nos seus lombos, e o seu poder nos músculos do seu ventre.

Ele enrija a sua cauda como o cedro; os nervos das suas coxas são entretecidos.

Os seus ossos são como tubos de bronze, as suas costelas como barras de ferro.

Ele é obra prima dos caminhos de Deus; aquele que o fez o proveu da sua espada.

Em verdade os montes lhe produzem pasto, onde todos os animais do campo folgam.

Deita-se debaixo dos lotos, no esconderijo dos canaviais e no pântano.

Os lotos cobrem-no com sua sombra; os salgueiros do ribeiro o cercam.

Eis que se um rio trasborda, ele não treme; sente-se seguro ainda que o Jordão se levante até a sua boca.

Poderá alguém apanhá-lo quando ele estiver de vigia, ou com laços lhe furar o nariz?

Poderás tirar com anzol o leviatã, ou apertar-lhe a língua com uma corda?

Poderás meter-lhe uma corda de junco no nariz, ou com um gancho furar a sua queixada?

Porventura te fará muitas súplicas, ou brandamente te falará?

Fará ele aliança contigo, ou o tomarás tu por servo para sempre?

Brincarás com ele, como se fora um pássaro, ou o prenderás para tuas meninas?

Farão os sócios de pesca tráfico dele, ou o dividirão entre os negociantes?

Poderás encher-lhe a pele de arpões, ou a cabeça de fisgas?

Põe a tua mão sobre ele; lembra-te da peleja; nunca mais o farás!

Eis que é vã a esperança de apanhá-lo; pois não será um homem derrubado só ao vê-lo?

Ninguém há tão ousado, que se atreva a despertá-lo; quem, pois, é aquele que pode erguer-se diante de mim?

Quem primeiro me deu a mim, para que eu haja de retribuir-lhe? Pois tudo quanto existe debaixo de todo céu é meu.

Não me calarei a respeito dos seus membros, nem da sua grande força, nem da graça da sua estrutura.

Quem lhe pode tirar o vestido exterior? Quem lhe penetrará a couraça dupla?

Quem jamais abriu as portas do seu rosto? Pois em roda dos seus dentes está o terror.

As suas fortes escamas são o seu orgulho, cada uma fechada como por um selo apertado.

Uma ã outra se chega tão perto, que nem o ar passa por entre elas.

Umas Os seus espirros fazem resplandecer a luz, e os seus olhos são como as pestanas da alva.

Da sua boca saem tochas; faíscas de fogo saltam dela.

Dos seus narizes procede fumaça, como de uma panela que ferve, e de juncos que ardem.

O seu hálito faz incender os carvões, e da sua boca sai uma chama.

No seu pescoço reside a força; e diante dele anda saltando o terror.

Os tecidos da sua carne estão pegados entre si; ela é firme sobre ele, não se pode mover.

O seu coração é firme como uma pedra; sim, firme como a pedra inferior dumá mó.

Quando ele se levanta, os valentes são atemorizados, e por causa da consternação ficam fora de si.

Se alguém o atacar com a espada, essa não poderá penetrar; nem tampouco a lança, nem o dardo, nem o arpão.

Ele considera o ferro como palha, e o bronze como pau podre.

A seta não o poderá fazer fugir; para ele as pedras das fundas se tornam em restolho.

Os bastões são reputados como juncos, e ele se ri do brandir da lança.

Debaixo do seu ventre há pontas agudas; ele se estende como um trilho sobre o lodo.

As profundezas faz ferver, como uma panela; torna o mar como uma vasilha de ungüento.

Após si deixa uma vereda luminosa; parece o abismo tornado em brancura de cãs.

Na terra não há coisa que se lhe possa comparar; pois foi feito para estar sem pavor.

Ele vê tudo o que é alto; é rei sobre todos os filhos da soberba.

Job

Então respondeu ao Senhor:

Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido.

Quem é este que sem conhecimento obscurece o conselho? por isso falei do que não entendia; coisas que para mim eram demasiado maravilhosas, e que eu não conhecia.

Ouve, pois, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me responderas.

Com os ouvidos eu ouvira falar de ti; mas agora te vêem os meus olhos.

Pelo que me abomino, e me arrependo no pó e na cinza.

Deus repreende os amigos de Job

A Bíblia Online > Antigo Testamento > Livros Poéticos e Sapienciais > > Deus repreende os amigos de Job [Jó 42:7 - Jó 42:9]

Sucedeu pois que, acabando o Senhor de dizer a aquelas palavras, o Senhor disse a Elifaz, o temanita: A minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos, porque não tendes falado de mim o que era reto, como o meu servo Jó.

Tomai, pois, sete novilhos e sete carneiros, e ide ao meu servo Jó, e oferecei um holocausto por vós; e o meu servo Jó orará por vós; porque deveras a ele aceitarei, para que eu não vos trate conforme a vossa estultícia; porque vós não tendes falado de mim o que era reto, como o meu servo Jó.

Então foram Elifaz o temanita, e Bildade o suíta, e Zofar o naamatita, e fizeram como o Senhor lhes ordenara; e o Senhor aceitou a Jó.

Deus restaura a prosperidade de Job

A Bíblia Online > Antigo Testamento > Livros Poéticos e Sapienciais > > Deus restaura a prosperidade de Job [Jó 42:10 - Jó 42:17]

O Senhor, pois, virou o cativeiro de , quando este orava pelos seus amigos; e o Senhor deu a Jó o dobro do que antes possuía.

Então vieram ter com ele todos os seus irmãos, e todas as suas irmãs, e todos quantos dantes o conheceram, e comeram com ele pão em sua casa; condoeram-se dele, e o consolaram de todo o mal que o Senhor lhe havia enviado; e cada um deles lhe deu uma peça de dinheiro e um pendente de ouro.

E assim abençoou o Senhor o último estado de Jó, mais do que o primeiro; pois Jó chegou a ter catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas.

Também teve sete filhos e três filhas.

E chamou o nome da primeira Jemima, e o nome da segunda Quezia, e o nome da terceira Quéren-Hapuque.

E em toda a terra não se acharam mulheres tão formosas como as filhas de Jó; e seu pai lhes deu herança entre seus irmãos.

Depois disto viveu Jó cento e quarenta anos, e viu seus filhos, e os filhos de seus filhos: até a quarta geração.

Então morreu Jó, velho e cheio de dias.